Monsters of Rock, sabado 19
de outubro 2013 (SP).
Nem a pouca relevância atual das bandas escaladas nem a falta de material
novo de das principais atrações impediram a primeira noite do festival Monsters
of Rock de ser sucesso de público. A Arena Anhembi, em São Paulo, se encheu de
camisetas pretas neste sábado para conferir principalmente as bandas americanas
Slipknot, Korn e Limp Bizkit.
O nome mais importante do dia foi o Slipknot, que entrou no palco às 21h40
e, por duas horas, mostrou um show pesado e bastante competente. A banda
mascarada não lança material novo desde 2008. Por isso, o show é feito só de
músicas bem conhecidas dos fãs, garantindo uma resposta entusiasmada para quase
todas as canções.
O Slipknot pesa o braço na bateria e na percussão – são três integrantes só
para isso. Com esse trio, a batida forte das músicas mais rápidas faz o chão
tremer. Nas mais lentas, domina um clima de trilha sonora de filme de terror.
Para completar a diversão, a banda é performática e faz uso de pirotecnia e uma
grande percussão giratória para oferecer ao espectador distrações além do
carismático vocalista Corey Taylor.
A banda chegou conquistando o público com Disasterpiece e Liberate
e seguiu alternando faixas de seus quatro álbuns. Mais para o final, Psychosocial
fez os fãs pularem de novo, mas foi na dobradinha Duality e Spit
it Out que a apresentação atingiu seu auge. A primeira, dedicada ao
baixista Paul Gray, morto em 2010, teve coro alto do público, enquanto na
segunda a banda repetiu o ritual de mandar o público inteiro se agachar e, ao
sinal do vocalista, pularem todos juntos. É truque repetido, mas ainda
funciona.
Antes do Slipknot, o palco foi do Korn. A banda de nu metal abriu o show com
um de seus maiores hits, Blind, causando uma boa primeira impressão,
mas acabou fazendo uma apresentação irregular, com alguns altos, com músicas
mais pesadas e contagiantes, e muitos baixos, esses em faixas mais lentas e
pouco conhecidas. As mais novas, do álbum The Paradigm Shift, lançado
neste mês, passaram despercebidas pelo público, que aproveitou para conversar.
O vocalista Jonathan Davis se esforçava no palco, mas chegou a reclamar que
o público estava muito quieto. “Não voei até aqui para isso”, disse. A
grande surpresa do show e o momento mais animado da passagem do Korn pelo palco
foi a aparição de Andreas Kisser e Derrick Green, do Sepultura, para uma versão
honesta de Roots Bloody Roots, da banda brasileira. Freak
on a Leash, maior hit do Korn, ficou para o final.
Vagalume - Antes do show morno do Korn, o Limp Bizkit
tinha feito pior. A banda liderada por Fred Durst também fez seu nome dentro do
nu metal, mas o grupo que se apresentou aqui em nada se parece com aquele que,
em 1999, foi responsabilizado por incitar o tumulto que encerrou o festival
Woodstock. Ainda há peso no som, mas a atitude é bastante comportada.
Fred Durst elogiou os brasileiros e falou em amor e diversão. Já o
guitarrista Wes Borland vestia um aparato que cobria sua cabeça e seu braço
direito e que, durante todo o show, acendia e piscava em cores diversas.
Parecia um vagalume.
Aerosmith,
20 de outubro.
O Aerosmith é uma das grandes instituições do rock e seu show é grandioso e
forrado de hits. A performance individual de cada integrante é impecável, o
entrosamento entre eles é perfeito, mas o show é previsível do início ao
fim. Você sabe quais sucessos serão tocados e eles são tocados exatamente como
estão em disco, apenas com as deixas estratégicas para o público cantar junto.
Você já conhece as roupas, as caretas, sabe que o vocalista Steven Tyler e o
guitarrista Joe Perry vão dividir o microfone uma dúzia de vezes, que Tyler vai
balançar o pedestal para lá e para cá e vai se jogar no chão em algum momento.
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O show que encerrou a segunda noite do festival Monsters of Rock, na Arena
Anhembi, não fugiu à regra. Foi bem marcado, quase tudo cronometrado e
coreografado. Não há espaço para espontaneidade ou surpresas. A banda se
empenhou durante duas horas e fez um bom show, mas não demonstrou estar
especialmente inspirada em momento algum.
Apesar de ter mais de 40 anos de estrada, o grupo privilegiou as décadas
mais recentes, com o pop rock dos anos 1980 de Love in an Elevator, Rag
Doll, What it Takes e Dude (Looks Like a Lady), e
com o rock de arena e as baladas dos anos 1990 e 2000, caso de Pink,
I Don’t Want to Miss a Thing, Jaded e Livin’ on the Edge.
Entre os destaques da noite, a baladona Cryin’, que reergueu a
carreira da banda em 1993, foi cantada por todo o público do início ao fim. Já
no bis, a bela Dream On, lançada 20 anos antes, levou Steven Tyler ao
piano e provocou arrepios. A apresentação acabou com uma versão convincente do
hard rock Sweet Emotion, da fase setentista.
Whitesnake – Antes do Aerosmith aparecer, a
noite foi uma viagem de volta ao hard rock dos anos 1980 para um público
mais velho e muito mais feminino do que o do primeiro dia de festival. A
segunda grande atração foi o Whitesnake. David Coverdale entrou no palco com
uma camisa branca com a bandeira do Brasil estilizada. Aberta até o umbigo, deixava
ver várias correntes penduradas no pescoço. O cabelo continua igual: longo,
loiro e ainda volumoso, apesar de seus 62 anos de idade. E o mesmo vale para a
voz. Grande trunfo do Whitesnake, o gogó de Coverdale pode não estar intacto,
mas ainda produz um vozeirão.
Hoje o Whitesnake é quase todo jovem, mas é virtuoso e bem entrosado. Há
solos de guitarra em todas as músicas. O baterista Tommy Aldridge, veterano que
já tocou com Ozzy Osbourne e Gary Moore, também sola (e, no meio do solo,
dispensa as baquetas e toca com as mãos). Há até solo de gaita.
O show foi de hard rock pesado, com guitarras altas na maior parte do tempo,
como em Love Ain’t no Stranger, Love Will Set You Free e Fool
For Your Loving. Mas são as grandes baladas as mais populares por aqui e
foram elas que mais entusiasmaram a plateia, em especial a feminina. Here I
Go Again fez sucesso, mas foi Is This Love, tocada logo no
início, que arrancou lágrimas das fãs.
A boa apresentação foi encerrada com duas músicas do Deep Purple, do qual
Coverdale fez parte entre 1976 e 1979: Soldier of Fortune e Burn,
essa em uma interpretação arrasadora.
Desencontros – Os primeiros a tocar em posição de destaque
foram os norte-americanos do Ratt, que chegaram no início da noite. A banda de
hard rock trouxe direto dos anos 1980 as calças de couro, os cabelos longos e
repicados, as bandanas na cabeça e os longos solo em guitarras “flying V”.
Seu som, que já era ruim quando ainda fazia parte de um estilo que estava na
moda, hoje em dia fica ainda pior. Não só porque soa datado e repetitivo, mas
também porque a banda não sabe mais como executá-lo. Os integrantes se
desencontram constantemente e seguem perdidos por longos minutos. Foi assim até
no grande hit da banda, Round and Round, última do set list. O
vocalista Stephen Pearcy tenta ser simpático, mas se esforça demais. E sua voz
de gata no cio incomoda os ouvidos.
Sem filas – Segundo a assessoria, o Monsters of Rock teve
seus ingressos esgotados, reunindo 30 000 pessoas por dia. Em todo o evento, a
estrutura funcionou bem. Era fácil trocar dinheiro por fichas e pegar comida e
bebida; pequenas filas se formavam apenas no horário de pico, perto das 20
horas. Ambulantes circulavam pela pista levando comes e bebes para quem não
quisesse sair do lugar e diminuindo a demanda nos bares e restaurantes
laterais.
Os banheiros também foram suficientes. Filas se formaram apenas nos
femininos próprios do Anhembi, preferidos pelas moças. Mas quem não quisesse
esperar tinha os químicos à disposição – esses menos cômodos, mas sem espera.
Fonte: veja.abril.com.br